Desmitificar os mercados emergentes

7 min para ler 5 jul 22

Queira consultar o glossário para uma explicação sobre os termos de investimento utilizados ao longo deste artigo.

Provavelmente já ouviu falar dos “mercados emergentes”, mas a proposta de investimento que oferecem pode, muitas vezes, ser mal interpretada. Em seguida, apresentamos cinco pontos que irão ajudá-lo a decidir se os mercados emergentes podem ser uma boa opção para a sua carteira de investimento.

1. Nem tudo se resume à China

Não há como negar que a China tem uma enorme importância económica. À data de março de 2022, é a segunda maior economia do mundo em termos do produto interno bruto e quase uma em cada cinco pessoas na Terra é chinesa. Como tal, a economia chinesa é bastante relevante, mas nem sempre é o melhor local para investir. 

As empresas chinesas podem sofrer de demasiada interferência estatal e, por vezes, são geridas tendo em vista os resultados sociais desejados na China e não tanto os interesses dos acionistas das empresas. Nos últimos anos, houve casos de investimentos avultados realizados, de forma ineficiente, em empresas não lucrativas e em projetos de poderes locais.  

O tamanho gigantesco da China pode, por vezes, ofuscar outros mercados emergentes (ME) que oferecem um alargado e diverso conjunto de oportunidades, como as matérias-primas da América Latina ou as tecnologias da informação da Índia. A taxa de crescimento da Índia é semelhante à da China e, além disso, o país beneficia do facto de uma grande parte da população falar inglês. O Brasil é a maior economia da América Latina e um grande produtor de petróleo, enquanto a Coreia do Sul conseguiu superar a crise da Covid-19 e demonstrou ser resilientes aos confinamentos que afetaram os seus vizinhos asiáticos.

O relatório “The World in 2050” elaborado pela PwC prevê que em 2050 as três maiores economias mundiais serão, por esta ordem, a China, a Índia e os Estados Unidos.

2. Os mercados emergentes são diferentes dos mercados de fronteira

Basicamente, as economias emergentes são aquelas que – quando a economia está bem e não existem desafios de ordem geopolítica, ambiental ou sanitária – crescem rapidamente rumo a um avançado estado de desenvolvimento. Por norma, estão em vias de industrialização, produzindo bens para o mercado mundial e desenvolvendo os seus mercados internos de consumo.

O Morgan Stanley Capital International (MSCI), um índice de referência do desempenho dos mercados emergentes, classifica 24 economias como “emergentes”. Aquelas que se destacam são a China, o Brasil, a Índia e os Emirados Árabes Unidos. Também inclui países relativamente ricos, como a Coreia do Sul, o México e a África do Sul.

As diferenças entre as várias economias mostram que os ME não são homogéneos. O processo de desenvolvimento económico não é linear e cada ME apresenta características de investimento específicas. Por exemplo, a Ásia Oriental, devido às suas estreitas ligações com a economia chinesa, apresenta oportunidades de investimento e desafios económicos muito diferentes do que a Europa do Leste que está ligada à União Europeia.

Em geral, os mercados de fronteira são economias menos desenvolvidas cujos mercados bolsistas poderão ter uma menor regulação ou liquidez, o que significa que poderá ser difícil vender os ativos de investimento indesejados. Estes países podem nem sequer ter um mercado bolsista no qual negociar investimentos. Entre os países que o MSCI considera mercados de fronteira estão a Croácia, a Nigéria e o Paquistão.

Como tal, é possível distinguir entre os mercados emergentes e os mercados de fronteira, tal como ilustrado no mapa seguinte.

3. Uma economia em crescimento não é exatamente o mesmo que um mercado bolsista em crescimento

A atratividade dos países dos ME decorre das suas economias em rápido crescimento. Normalmente, os ME crescem 6%-7% ao ano, o que compara com menos de 3% para os países dos mercados desenvolvidos (MD). Tendem a ter mão de obra barata, uma maior proporção de jovens na força de trabalho e relativamente menos pessoas idosas para cuidar. É um cenário oposto ao que se verifica na demografia das economias desenvolvidas, embora a China seja uma grande exceção a esta regra dado que a sua população está a envelhecer rapidamente. 

Além disso, à medida que os países dos ME progridem rapidamente para um avançado estado de desenvolvimento, as suas populações entram na classe média; estes novos cidadãos urbanos também são novos consumidores e importantes vetores do desenvolvimento económico futuro.

Dito isto, o rápido crescimento económico não é sinónimo de um forte crescimento do mercado bolsita. São as empresas bem geridas que criam boas oportunidades de investimento e, logo, impulsionam o mercado bolsista.

Antigamente, as empresas dos ME dependiam do baixo custo de mão de obra e da mão de obra abundante para produzir em massa bens baratos e subcotar os produtos das empresas nos MD. À medida que estas empresas aprenderam a competir no mercado mundial, também compreenderam que esta estratégia não produz resultados a longo prazo. Por conseguinte, orientaram-se para bens de maior qualidade e investiram em investigação e desenvolvimento, a fim de continuarem a inovar e garantirem a sua sobrevivência futura.  

Um destes exemplos é a Samsung, a fabricante de eletrónica de consumo sul coreana, que ao longo dos últimos anos deixou de ser uma pequena empresa de exportação para se tornar num proeminente fornecedor de semicondutores, telemóveis e outros aparelhos elétricos de elevada qualidade.

4. É complicado investir nos mercados emergentes

As oportunidades presentes nos ME de rápido crescimento são um chamariz inicial para os investidores. Mas, não obstante a atratividade, importa recordar que estes países estão mais vulneráveis a perturbações políticas, tal como demonstrado pelo recente conflito na Ucrânia. 

Em março de 2022, as sanções internacionais causaram o colapso do rublo russo, o que, subsequentemente, provocou uma queda dos mercados na Ásia e América Latina. Estes tipos de “choques” têm tendência a afetar as economias dos ME como um todo. Contudo, os governos estão a começar a constituir reservas para se protegerem contra estes acontecimentos, nomeadamente a constituição de maiores reservas cambiais.  

Infelizmente, a pandemia da Covid-19 exauriu alguns destes recursos, o que deixou estas economias mais expostas do que teria sido o caso. 

De igual modo, os ME não seguem necessariamente os movimentos dos MD e, como tal, podem conferir diversificação à sua carteira. A título de exemplo, a América Latina tem provado ser um “porto seguro” improvável durante esta crise devido às muitas matérias-primas que exporta, incluindo petróleo. 

5. Como aceder a investimentos nos mercados emergentes

É possível investir diretamente em empresas individuais cotadas no estrangeiro, mas poderá ser mais fácil garantir a diversificação mediante o investimento num fundo com gestão profissional que detém um vasto leque de ativos nos ME. Não constitui uma garantia contra quaisquer perdas, mas a diversificação dos seus investimentos deve reduzir o impacto negativo de fracassos de empresas individuais no valor da sua carteira.

Ao adotar uma abordagem baseada em fundos, com o seu dinheiro agregado ao de outros investidores, pode obter exposição a grandes ativos, como obrigações do Tesouro dos ME, que de outra forma poderão não estar acessíveis aos investidores individuais. Os gestores de fundos ativos também podem contribuir com os seus conhecimentos profissionais e encarregar-se da due diligence.

Como alternativa ao investimento em ativos nos ME, pode obter exposição aos ME mediante o investimento em ações ou títulos de dívida (obrigações) de empresas de MD cujas atividades estão centradas nos ME.

Existem várias empresas cotadas no Reino Unido que geram a maior parte das suas receitas – e crescimento – a partir de ME.

Informação importante

Ao decidir como investir, há que ter em mente que o valor e o rendimento dos ativos de um fundo aumenta e diminui, o que fará com que o valor do investimento desça e suba, pelo que o investidor poderá receber menos do que inicialmente investiu. Os mercados emergentes tendem a apresentar maiores flutuações nos preços dos que os mercados mais desenvolvidos, porque, por norma, são mais pequenos, têm menos liquidez e são mais sensíveis a fatores económicos e políticos.

O desempenho passado não é um guia para o desempenho futuro.

As opiniões expressas neste documento não devem ser consideradas como sendo uma recomendação, conselho ou previsão. Não nos é possível dar conselhos financeiros. Caso tenha qualquer dúvida sobre a adequação do seu investimento, deverá falar com o seu consultor financeiro.

Noticias relacionadas