Ações
5 min para ler 10 set 25
Queira consultar o glossário para uma explicação sobre os termos de investimento utilizados ao longo deste artigo.
Fabiana Fedeli
CIO, Ações, Multiativos e Sustentabilidade
No início de agosto, assistimos a um número fraco da folha de pagamentos dos EUA, a que se seguiu um número melhor do que o previsto duas semanas mais tarde. Os dados relativos ao IPC revelaram uma melhoria da inflação global e uma recuperação do núcleo, mas não houve uma repercussão clara dos aumentos de preços dos bens provocados pelas tarifas.
Os dados no resto do mundo, na Europa e na Ásia, por exemplo, continuam fracos, mas sem um impacto claro das tarifas... pelo menos, por enquanto. No entanto, as alterações nos dados macroeconómicos têm um impacto duradouro nos mercados de risco, particularmente nas ações, apenas se afetarem os lucros.
Já demonstrámos anteriormente que a correlação entre o desempenho do mercado acionista e o crescimento real do PIB no passado recente tem sido, no mínimo, ténue.
Uma outra consideração (específica dos EUA) que os investidores devem ter em conta é a fiabilidade futura dos dados económicos dos EUA, numa altura em que muitas das agências e organismos responsáveis pela sua recolha perderam pessoal devido aos cortes nas despesas do DOGE (Department of Government Efficiency - Departamento da Eficiência Governamental).
O Gabinete de Estatísticas do Trabalho, mesmo antes de o comissário ter sido demitido pelo Presidente Trump, o Gabinete de Recenseamento e o Gabinete de Análise Económica perderam conselheiros e funcionários e sofreram cortes de custos mais alargados. Consequentemente, estão a ser recolhidos e adquiridos menos dados e estão a ser utilizadas mais estimativas matemáticas. Francamente, não sabemos qual será o impacto global na qualidade dos dados, mas, para já, é motivo de preocupação – sobretudo, quando se trata de comparações com dados anteriores.
Embora os dados macroeconómicos atuais não nos deixem mais esclarecidos, algumas das declarações dos gestores das empresas durante as mais recentes divulgações de resultados mostram que o impacto total das tarifas ainda está para vir.
E, embora algumas empresas já tenham sentido o impacto dos direitos aduaneiros nas suas margens, a recente época de resultados revelou que muitas empresas ainda não repercutiram esses custos nos consumidores.
Assim, o impacto sobre as margens das empresas em geral e sobre a procura final (se os consumidores apertarem o cinto em resposta aos preços mais elevados) ainda não foi totalmente percebido. Os próximos meses serão fundamentais para observar qualquer agravamento significativo dos dados macroeconómicos e empresariais na sequência da aplicação das tarifas.
Será que isto significa que devemos entrar em pânico e fugir para a saída? Não é essa a nossa conclusão. Em primeiro lugar, aprendemos ao longo dos últimos anos que os mercados de ações e de crédito se mantiveram resistentes apesar de uma série de preocupações macroeconómicas e geopolíticas, uma vez que os lucros resistiram a muitas tempestades.
Em segundo lugar, uma resolução pacífica do conflito na Ucrânia poderia reavivar áreas do mercado, particularmente na Europa, com as empresas a beneficiarem potencialmente do esforço de reconstrução, bem como da probabilidade de preços do gás mais baixos.
Em terceiro lugar, nem todas as empresas serão afetadas da mesma forma pela dinâmica do mercado e das tarifas. Como sempre, haverá vencedores e vencidos.
A época de resultados, que está quase a chegar ao fim, está a reiterar uma característica a que já nos habituámos, a de empresas do mesmo setor com desempenhos muito diferentes umas das outras – quer devido a uma melhor inovação de produtos e poder de fixação de preços, cadeias de fornecimento mais fortes, exposição geográfica ou a segmentos de clientes e – claro – gestão global.
O fator-chave aqui não é ignorar o risco de pressão tarifária sobre as margens ou de fraqueza da procura nas empresas das nossas carteiras, mas sim compreender quais as empresas que provavelmente continuarão a ser mais resistentes e, em alguns casos, conseguirão efetivamente aumentar a sua competitividade.
Para nós, tudo o que foi dito acima continua
uma análise mais granular ao nível das ações para tirar partido das oportunidades idiossincráticas.
Isto é particularmente verdade no caso das ações, dado o grau de complacência a que temos assistido. A nível do índice, as avaliações de vários mercados necessitarão de fundamentos sólidos para serem apoiadas. Por conseguinte, para encontrar oportunidades de investimento, a nossa opinião é que é melhor aprofundar e analisar títulos individuais em vez de índices globais, seja a nível de país ou de setor.
O valor dos investimentos irá flutuar, o que fará com que os preços diminuam e aumentem. Poderá não recuperar o montante inicialmente investido. O desempenho no passado não é indicativo do desempenho no futuro. As opiniões expressas neste documento não devem ser consideradas como sendo uma recomendação, conselho ou previsão. Não nos é possível dar conselhos financeiros. Caso tenha qualquer dúvida sobre a adequação do seu investimento, deverá falar com o seu consultor financeiro.